domingo, julho 20, 2008

here is no why

às vezes eu penso e queria saber mesmo o que é isso de ter uma ambição -- daquele tipo tão óbvio que leva a pessoa ambiciosa a fazer escolhas fáceis porque seu foco na vida é incrível--; às vezes me pego querendo saber mesmo o que é isso de ter desejos não como objetos de luxo mas como o sono que você dorrme, obsessões tão sadias quanto jogging diário às cinco da manhã.
de uns anos para cá, conhecendo pesoas com paixões bem definidas, o modo como essas paixões ocupam seus quartos e vidas, percebi que tenho bastante respeito por aqueles que acabam kinda se tornando suas paixões. .
há,por exemplo, os leigos que reviram os olhos chamando-os de ok-nerds-get-a-life, e eu me sinto até um pouco culpado por não sentir culpa em reconhecer o valor de saber de cor, por exemplo, listas de habilidades, perícias, combinações de habilidades e perícias, dados, armas, clãs, categorias de personagens, reinos, mundos, magias, sistemas, autores, história, todas essas minúcias que sabe um rpg freak. penso no dinheiro gasto com livros no tempo gasto com debates, em qualquer coisa gasta com qualquer coisa como isso, e fico feliz de imaginar o fundo-de-garrafa respondendo recitando listas como recitasse batatinha-quando-nasce às dúvidas dos n00bs. o problema, eu acho, é que não são tantas as pessoas que perguntam sobre rpg quanto as que perguntam sobre pontadas no coração. e por isso os médicos é que são uh a grande coisa.
e então eu penso no que é isso que ME MOve, no que são as minhas listas de armas e magias.---------no que é isso em que eu poderia ser a refer^ncia. penso no que eu gosto de fazer, e então penso em tempo livre -- música, livros, desenhos, jogos & filmes. e sinto nessa lista uma corrente ARTSY, e isso é mesmo algo com que eu me importo; acontece de eu perder aula adiar trabalhos pra ficar em casa remanchando sobre os cadernos com coisas escritas terminando de arrematar com alguma cagada algum desenho. .
butwait. eu poderia bem ter dito que o TEMPO LIVRE ali é que é, na verdade, um das minhas paixões. não digo a liberdade total, porque jamais persegui minha liberdade ardentemente, como, não sei, um revolucionário? se não lido bem com as cobranças, lido ainda pior com as possibilidades. e aí então eu tento adaptar-me e explorar esse pequeno resto obedecer às leis menores a fim de burlar as maiores e busco brilhar meu próprio brilho entre as frestas dessas portas portas portas de madeira.
com a leve --e um tanto triste-- impressão agora de que conseguiria mesmo responder como um buda sorridente ao que me perguntassem sobre os mistérios desse cinismo.

quarta-feira, julho 09, 2008

the engima of amigara fault. milhares de buracos em forma de gente encontrados na falha exposta por um terremoto -- ------

domingo, junho 29, 2008

igloo

o nome me apareceu em sonho. roadkill. rooooadkill. e era um bom nome. quando abri os ohlos, não questionei o cabimento nem o que representava. não lembro do sentimento com que acordei, não lembro bem de onde o nome veio. o vi no ar somente, escrito feito um halo gasto a flutuar sobre os meus posts, como se tivesse sempre estado ali, como se fosse natural. eu assenti como um bebê índio, filho do inconsciente.
outros nomes já me apareceram em sonho, assim como outras coisas, que eu também resolvi aceitar. não sei. aceitar as coisas vindas dos sonhos é talvez como se reservar uma surpresa catártica para o futuro; como receber e guardar agora uma foto de alguém que você não conhece e só vai conhecer tempos depois. e então você conhece e aí está-- você entende por que manteve aquela foto.
e aí que hoje eu me dei conta. acordei há oito horas e desde então dei poucos passos para além desta cadeira preso ao computador como houvesse tirado
o telefone do gancho fugindo do que eu TENHO que fazer.;;;;; (me entregando a essa condição de não se importar com o efeito de uma estupidez dormente e raivoso de braços cruzados e testa franzida na neve perdido em paisagem de sonho onde o céu lavanda relampeia, andando entre veados carregando diamantes coloridos presos nas galhadas correndo em câmera lenta ao som de um pedal duplo de drum machine--------há dias ouvindo "pyramids", me sinto num estado perene de sonho. e eu ouço esse disco depois de uma ouvida e outra depois dessa e então outra, e eu me sinto livre preso nessa repetição.
nesse ambiente etéreo e infernal. sem precisar fazer mais nada.

["Pyramids", Pyramids, 2008]

)
e dentre as voltas voltas perseguindo o meu
próprio rabo, voltei para o meu pr´oprio blog e li ele de novo --- em parte. li algumas coisas caixa de fotos velhas e vi -- este é mesmo um blog sobre alguma coisa. este é um blog sobre A FUGA. é esse o rosto naquela foto de um estranho que eu guardei. e não é um padrão muito velado, é até fácil perceber. este é um blog sobre a fuga. cada post é sobre ficar
esperar
esquecer
fingir
ou partir.
e depois de ler e ler os posts, subindo então
em suspense a barra de rolagem, estava lá no topo, como se fosse um novo halo luminoso --- roooooadkill.

terça-feira, junho 24, 2008

we will revolt

lembro da cena do piquenique promovido por julia em "1984", quando ela , tentando confortá-lo ---e confrontá-lo, dizia a winston (que mal podia, idealista e paranóico, acreditar no cinismo da nova parceira diante de todo o horror do sistema) que era preciso respeitar as leis menores de modo a conseguir burlar as maiores. acho que foi assim. que era preciso aquiescer ao que você deve fazer, suportar a mesquinhez da rotina produtiva, que você pode usar a máscara de cidadão regular de modo a voar sob o radar, não ser apontado pelo grande-olho em função de suas diferenças e ent~ao subverter a coisa toda por detrás da aparência.
fazer o papel faz parte do idealismo------ em algum ponto de eu-em-crise acho que vi isso como uma verdade, eu fui julia no piquenique depois de trepar com winston. percebi que não se trata de não ceder nunca, mas caminhar sobre as brasas em direção ao que se quer. e isso pressupõe uma visão assustadora do mundo, de que o mundo é um lugar de renúncias. mas só é assustadora, eu imagino, porque a gente pode pensar sobre isso e ver como a gente deseja demais e possui tão poucos recursos, e que existem caminhos fáceis em demasiado pruma vida que é, no fundo, tão difícil.
mas em alguns momentos eu quero acreditar que a vida é fácil, e que os caminhos é que são difíceis. e resolvo fazer o que há de ser feito, como um trabalho de teoria da literatura II para a próxima semana, ha fuckin ha. mas tenho quse certeza de que isso parece correto poruqe não consigo pensar em uma fuga realmente efetiva, e não me disponho a tentar. olho ao redor, escuto minhas músicas, leio meus livros, escrevo minha história, vou a esse a aquele lugar na sexta-feira --- e onde está a verdadeira fuga? o que é isso que eu faço que redime eficazmente o aborrecimento? por que depois de dizer (tanto faz) sim ou não a esse trabalho de teoria da literatura II , outros trabalhos virão? por que eu me sinto tão a parte mais estúpida de julia?

sexta-feira, junho 20, 2008

denise patrícia segurou cansada o travesseiro com dois braços o seu travesseiro com o cheiro íntimo do sono, o branco com lisases de sua romântica roupa de cama, a espuma revelada pela boca aberta da fronha como displicente nudez de uma pele sagrada, de um amante, que denise patrícia tocou com as mãos de uma primeira carícia vacilante -- ela abraçou o travesseiro como o corpo de um homem e afagou suas entranhas com os dedos deslumbrados pela sensação a mão animal sob a terra pelo cós daquela calça. o conforto de um perfume secreto tão perto de seu rosto pareceu surpreendente. ela mal acreditava em seus sentidos, no prazer de oferecer um toque a um tronco macio que o permitisse; denise patrícia mal acreditava no poder de haver um volume que envolvesse com um cuidado muito cúmplice contra seu peito enquanto via no teto do quarto quente e morna um filme como visto a dois por dois recentes namorados.

sábado, fevereiro 02, 2008

heart of darkness

tenho tido ultimamente essas visões, que não são bem como sonhos. nem como sonhos acordados. na verdade, já faz um tempo que mal me lembro de meus sonhos. e não me lembrar de meus sonhos é uma coisa particularmente ruim, para mim acostumado a ser guiado pelas noites depois dos mais diferentes dias, rumo a qualquer episódio onírico sempre sempre muito mágico-- como se fosse o sono um perfeito filme de perturbadora aventura, onde o tesouro sempre sou eu mesmo, o meu entendimento sobre mim, brilhando como moedas de ouro quando desperto sob o sol do outro dia; o sono é um perfeito entrar numa wallstreet fantástica e tratar de negócios com meus inflacionados desejos secretos;. e ,depois de um sonho, acordar na realidade é como estar indo dormir de novo, para dentro de pequenos sonhos vulgares do dia-a-dia, de delírios de febre, de sonhos gentis em que eu levito ou de pequenos pesadelos. geralmente de pequenos pesadelos.
é no meio desse dormir para fora que me ocorrem as tais visões, suspiros com imagens flashes dos sonhos noturnos presos bem no fundo de minha cabeça, que já não me visitam mais como deviam e que minha insônia diurna precisa então capturar---- são flashes mas são flashes volitivos, cenários arbitrários inspirados num desejo interior, meu eu secreto insistindo em ser compreendido - não mais, porém, pela desenigmificação dos sonhos noturnos, e sim por aquele desejo, por querer projetar-me para lá,.
e essas visões são visões sempre de desbravamento, em meio a uma floresta mítica de árvores gigantes; visões de desbravamento marítimo, navios de variados portes, a bordo dos quais me alço em oceanos virulentos, em missões como caças a sereias e descobertas de novos continentes. tudo me atinge enquanto meus olhos se abrem e fecham, muito rapidamente, e me acho ent~ao inteiro impregnado com o cinza de chumbo do mar e do céu, das tormentas que assolam minhas viagens, com o meu coração em chamas no coração da escuridão, os homens correndo ao meu redor, a tempestade passando por dentro de mim, meus olhos injetados enquanto tenho nas mãos algum cordame de vela, lutando em nome da sobrevivência.
e então agora tudo é meio diferente. -->fugir<--- costumava ser meu anseio secreto e também meu anseio manifetso, a resposta do código em meus sonhos, lúcidos ou não. fugir mais como um desaparecer, um renunciar a quase todas as ambições tontas da vida; isso parecia algo a se fazer. mas agora eu sou um desbravador em novos e constantes relâmpagos de desejo durante o dia. um caçador, um homem que se vislumbra necessariamente em meio à água turbulenta --e persevera. que escapa da vida e ainda luta por ela.----- e só o que ainda não me consta mesmo é o jeito como a história que essas visões contam, uma hora, vem a terminar.

domingo, janeiro 20, 2008

ghost of his smile

às vezes o fim do dia é como o meio de uma estrada. supondo que você tenha um carro e um dia deixou sua casa seu trabalho seu apartamento anônimo com um mensageiro do vento na janela e resolveu cruzar estradas ,orientado por mapas se desdobrando rumo ao encontro daquele abraço saudoso, ao encontro da pessoa que você deseja, ao encontro de alguém por quem você está apaixonado, por quem você chorou cem noites, alguém muito especial e único de quem você anseia envenenado ser o alguém especial e único, , que vai acolhê-lo e redimir seu corpo de tronco de árvore com beijos e carícias que serão só seus, em partes muito íntimas, aquela pessoa que merece ser completamente sua -- um dia você sai de casa, iluminado pela devoção e pelo perdão próprio e pela vontade de ser alguém melhor, como uma ambulância urgente transportando um coração sagrado, e o seu carro vira um cadillac de hollywood ao sol de óculos escuros e jaqueta com um coração rubro flechado estampado nela e a liberdade do amor que o fez trancar a porta do seu apartamento e esquivar-se do trabalho lhe acerta o rosto como um vento bandido. --- um dia você sai de casa, sua música favorita tocando em um peito de fornalha, uma música de aventura, de fim da civilização -- um dia você pega o carro, sai de casa para encontrar alguém especial muito distante, em outra cidade alguns muitos quilômetros distante, para um encontro surpresa-- e então a sua música favorita acaba e, antes que ela comece novamente, num milissegundo de realidade, você encosta o carro no meio da estrada vazia. desce, olha para trás calcula o caminho já feito e sente como aquela viagem foi estúpida. você sucumbe à ligeireza da felicidade. e a sua única vontade é de voltar pra casa, pro seu quarto onde estão todos os seus novos planos de verdade e tocar uma música nova, diferente,entristecida, de topo de montanha de nuvens onde você se senta só, contempla o mar de longe, onde o vento é um mar de ondas sobre sua cabeça. uma música não para sentir pena de si, mas apenas como companhia fantasma para um fim de dia num bar, um fim de dia ruim. de volta para você mesmo. e se a felicidade e o seu amigo no fim do dia são mesmo os dois fantasmas, que mal haveria de haver?

quarta-feira, setembro 12, 2007

hello, i'm in delaware


[auto-retrato com carrossel]

i'll keep on driving these dark highway lines.

sábado, maio 27, 2006

eulália voltou para a cama com o corpo quente de ansiedade e levantou-se novamente. passou a noite sonhando que matava golfinhos com um arco-e-flecha, e o terror vívido do cheiro salgado da morte e do mar, que, culpada, triste e resignada, pintava de sangue de dentro de sua canoa, a fez despertar nauseante de manhã. alimentou os gatos ainda ouvindo o choro dos golfinhos sendo perfurados, mas preferiu preparar o café dessa vez com a tv desligada. a lembrança em sua cabeça, impregnada de tão violento apelo sensorial, era um filme que não podia ser ruim, e menos pela qualidade perturbadora de suas imagens de filme forte que pela pertinência velada de sua mensagem. eulália sabia que só precisava começar a se perguntar.

quarta-feira, abril 19, 2006

renegade princess


[patos, meninos] Posted by Picasa

fight!

terça-feira, abril 04, 2006

red

o que depõe mais contra a honra de um homem: não cumprir promessas ou deixar de fazê-las?

terça-feira, janeiro 31, 2006

just be careful when you shine
because when you shine a light on something magical
it disappears

sexta-feira, dezembro 16, 2005

[a calma navegação]

quando eu for de novo o rio
por entre vales de velhas montanhas
altas de 50 andares
entre os vales, eu o rio, a tempestade
voando baixo
em terrível ataque
eu nuvem preta de anjos vingadores
vingador dos vales calmos de montanhas
altas, dos cumes + altos
das + calmas cidades-fantasma,

hei de ser de novo rio veloz de leito escuro e limpo
de águas plácidas de tempestade.
hei de ser de novo
solícita estrela cadente em céu de estio
anjo menino de asas pretas
coração vermelho em chamas
como um avião em queda eterna
em chamas num vale de neve,

rio profundo de cama vazia
cama
de lençóis pretos macios,
de novo o rio feroz e da + doce
o rio veloz e da + calma
navegação.

sábado, novembro 12, 2005

an honest mistake

uma das coisas mais bonitas que existem talvez seja o controle. não o monótono controle científico, mas o monótono controle científico em seu doce viés chamado honestidade - uma coisa pensada de um jeito e que saiu desse jeito, sem desculpas. não a lei da previsibilidade científica, mas o encantamento estético das coisas em seus lugares;. que lugares são esses é o que vai de cada um.
a verdade, eu acho, é que a gente admira e se apaixona por pessoas que, muito além de moralmente controladas, sabem como manter o controle. especialmente sobre si mesmas. que põem suas coisas, boas e ruins, em seus devidos lugares. pessoas com crenças tão bem construídas que só podem estar falando sobre coisas em que acreditam, sem desculpas, ou que no fim lidam muito bem com suas próprias dúvidas. pessoas cujos gestos fluem, cuja postura parece quase sempre exatamente como deveria ser, tão natural e claramente, que parecem assumir de si pra si mesmas que, diabos, eu sei onde estou e o que eu estou fazendo. que sabem até que perder a cabeça de vez em quando pode ser bom, porque elas têm a preciosa habilidade de nadar de volta à margem e não se deixarem afogar no mar da insegurança.
nós admiramos e nos apaixonamos por pessoas que inspiram confiança, com sua vida própria, seus valores sólidos, sua presença de espírito, seu destemor, em quem nós sentimos alívio por poder acreditar, que nos resgatam da temível ameaça do desespero e nos oferecem uma vida sem traições. que podem até nos decepcionar, mas sem passar recibo por isso porque a fantasia da pessoa perfeita estava toda na nossa cabeça. essas são as pessoas que nós queremos ser. e às vezes nos tornamos idiotas ainda maiores por isso.
ser privado do controle é uma das coisas mais frustrantes que talvez a pessoa possa sentir. quem já perdeu a linha da pipa ou deixou queimar o bolo no forno sabe como é isso. e mesmo pra quem leva uma vida de impulsos - quando o pulo no rio escuro não é mais feito na fé, aí sim talvez o controle tenha se perdido. e aí sim o rio pareça mesmo escuro. quando você pensa que vai segurar o copinho descartável gentilmente e amassa o coitado, o pior não é amassá-lo, mas ter achado que ia apenas segurá-lo gentilmente - e então amassá-lo. e aí vai de cada um se perdoar. o que quase nunca acontece, já que a gente tenta se perdoar, segurar gentilmente o nosso ego, mas acaba amassando o coitado. e aí não tem fim. e, para quem experimenta ou passa a experimentar algo assim todos os dias, a existência das pessoas dotadas de controle deve ser uma maldição.
e o que eu penso é que culpa é um troço que a gente tem que botar pra fora, em vez de pra dentro. algumas pessoas - geralmente aquelas que admiramos e por quem nos apaixonamos - conseguem fazer um management bonito da culpa. não culpar o mundo e se eximir, mas estar tão certo de que aquele foi um erro honesto, sincero como a ciência, e então pô-lo no seu devido lugar - no de erro honesto. na estante dos erros, em vez de na gaveta das culpas. mas o que é um erro honesto, vai de cada um. da consciência de cada um de que está fazendo todo todo todo o possível pra não deixar vazar má-vontade. porque não há culpa na honestidade. e assim até o feio fica bonito, eu acho. e isso é tipo uma arte.

terça-feira, outubro 25, 2005

everything hits at once

há momentos em que a gente deseja que tudo o mais encolha quando estamos envolvidos com algumas pequenas coisas. ou com algumas grandes coisas. que o resto das preocupações, dos deveres cívicos, que o resto dos conflitos pessoais e globais, que as demandas diárias do nosso corpo e da civilização, que os engajamentos do mundo se resolvam enquanto a gente reza pra que eles se resolvam - para então nos dedicarmos a certas causas particulares, para que não nos pareça tão assustadora a idéia de que há tanto por fazer nessa terra. enquanto a gente acha que só pode fazer tão pouco. mas tem um negócio que diz que everything hits at once.
houve um tempo em que - eu estava certo - meu destino era morrer de amor. um momento em que era divertido brincar com a idéia de que tudo o mais se apagasse e só aquela luz se acendesse, de modo que essa fosse mesmo minha missão ------ viver para amar e eventualmente morrer de amor. ou escorregando no banheiro, valia também, desde que tivesse tido a chance de encontrar a paz naquele sentimento quando chegasse o dia. houve um tempo em que eu me sentia envolvido com essa grande coisa, em que eu não sabia não estar apaixonado, em que o meu medo era deixar de sangrar aquele doce recheio de bubbaloo que saía de meu peito, em que o resto do mundo não se apagava -- mas que ainda assim havia a luz. um tempo em que todos os meus poemas eram de amor, e que me inspirar em suas vicissitudes era como o meu dom.
claro. um idealista /como eu sempre achei que fui não podia dar margem ao pensamento de me render. um idealista existia para morrer pela causa, sem concessões. eu não concebia o sacrifício por mais nada além do amor. emprego, carreira, causas sociais, nada disso. e era como se tudo isso fossem distrações a me roubarem a energia. amar era tudo o que eu queria e o amor era o que eu sabia sentir de melhor. e eu o fabricava e fabricava e o guardava e guardava e - numa proporção menor - o usava e usava, como uma abelha e sua cera.
e no fundo, como uma abelha, eu não devia querer saber dos problemas do mundo, pois que minha única preocupação e dever deveria ser o ofício da cera. as guerras deveriam acabar. a matança das baleias deveria acabar. toda aquela coisa de camada de ozônio e crises econômicas e pandemia de ansiedade - nada dessas coisas deveria existir. no fundo, eu queria que o mundo me esquecesse, que não contasse comigo pra soldado. não haveria de haver causas pra mim, além do amor. não deveria haver nada que eu devesse compreender além de a mim mesmo o bastante, de modo que aquela cera fosse realmente resistente. de modo que eu soubesse o que era isso que eu estava entregando aos meus amantes.
e houve um tempo em que a minha roda da vida girava pela sorte entre ter e não ter onde usar a cera, entre ter e não ter aqueles amantes, entre me amaldiçoar em angústia ou me aliviar em delícia por conta de alguma fantasia com um grande amor. com a colméia em que eu fosse a rainha. sonhar com o grande amor me punha para baixo e para cima num mesmo ritmo. num ritmo que mantinha o meu espírito num estado sobre o qual eu possuía algum controle e alguma recompensa. num estado de equilíbrio. entre a febre de morrer pela causa romântica, encolhendo o resto do mundo, e o sonho alegre de ser a pessoa de alguém, querendo abraçar o mundo enorme para então dá-lo ao outro.
as fantasias com o grande amor eram o meu cérebro. controlavam da cabine o prazer e a dor, faziam contas de matemática e pintavam quadros. e SER o grande amor era a minha fornalha. porque, na expectativa pelo grande amor, eu tentava ser um grande amor eu mesmo. e então sabia que devia me entregar aos problemas do mundo de algum jeito. lutar pela paz, salvar as baleias e a camada de ozônio. ser um grande amor era a idéia por trás de ser um grande cara. o idealismo passava então pelo sacrifício. e como todo sacrifício é mesmo uma maldição, algumas vezes tudo cansava. o mundo me cansava. a civilização me cansava. mas ao mesmo tempo o amor, não importa o tanto de viadagem que essa sensação pareça carregar, sempre foi um bálsamo. porque me enchia a alma de beleza e, sem querer, no meio de todo o delírio, me obrigava a crescer. e assim eu olhava pro espelho e via um cara consciente, cúmplice e apaixonado ------ as melhores coisas que eu já me senti nessa vida.
mas aí a vida passa, as coisas acontecem, as luzes se apagam e se acendem e vice-versa, o tempo todo. e hoje há essa lacuna em mim. e eu tristemente sinto que talvez não seja um grande amor a encaixar-se nela. a roda da vida gira e meus olhos não brilham quando a casinha com o coração desenhado passa pela agulha. e não porque não seja em forma de coração essa lacuna. mas porque talvez o único coração a encaixar-se nela seja o meu próprio. e onde está o meu coração agora - é o que eu tenho me perguntado. onde está o meu coração?

domingo, setembro 04, 2005

sorrows



tehre's changes that never stray
false starts that draw the shine of rage

segunda-feira, agosto 08, 2005

the morning bell

tentei comemorar um mês sem posts com um post. queria dar esse presente. achei que era um bom presente, um mimo justo o bastante, a barra de chocolate wonka anual do pequeno charlie bucket. era uma comemoração afinal e, como na vida a gente comemora menos do que se sacrifica, achei que a comemoração valia o sacrifício - me sentaria e me esforçaria e poria em palavras alguma idéia perambulante em minha cabeça ou algum sentimento dando choques em meu coração. costuma ser um bom exercício.
mas afinal - eu não sentia que havia muito pra dizer naquele 3 de agosto, nada em especial que merecesse ser mostrado. eu perambulava pela casa como as idéias na minha cabeça, e pensava em que pensamentos eram esses que me ocorriam. que pensamentos eram esses que me ocorriam, que constatações que conexões que conclusões eram essas. o que era isso que eu queria botar pra fora? o que era isso de tão pungente em mim? o que era isso que eu poderia dizer? o que era isso que eu tinha pra dizer? alguma teoria? alguma sensação? como tinha sido o meu dia? que lições aprendidas? quais as novidades? no que eu acreditava? quais as coisas curiosas do mundo? o que eu amava e ,principalmente, por quê?
e nada. as palavras não vinham e pior - as idéias não vinham. as opiniões não vinham, só as queixas. a sabedoria não vinha, só o cansaço. como se, toda vez, eu abrisse a boca e dela saísse apenas um rangido de roda-gigante enferrujada. o que tem sido mesmo uma sensação recorrente - eu tenho me sentido essa roda-gigante, com a maioria de suas luzes vermelhas ainda acesas, mas enferrujada. queixosa e cansada.
e então aconteceu que o parque não abriu em 3 de agosto. ou abriu - por 10 minutos. me concentrei tanto em chorar minha miséria, que não consegui ver como mais que uma extravagância insistir no mimo dum post de qualidade. e então achei melhor continuar calado. sem ranger. e não insisti. cotumava ser um bom exercício, mas eu não exercitei. "não há assunto, não há assunto". e lembro de ter ido dormir nesse dia com uma ominosa resignação. como um desmemoriado que vai dormir, suspira e reza incrédulo para acordar lembrando-se de tudo ou pelo menos de qualquer coisa no outro dia.

e no fim não houve presente na comemoração de um mês sem posts. não houve o exercício, só o cansaço. não houve o sacrifício, só a queixa. não houve o mimo, só a tristeza. e eu fico pensando em o quão injusto e covarde foi deixar o pequeno charlie sem seu chocolate wonka esse ano.

domingo, julho 03, 2005

daphne descends

outro dia eu tava pensando. em como coincidem assustadoramente os momentos em que a gente menos se sente possuidor de alguma coisa com aqueles em que a gente mais tem medo de perder o que tem.
acho que daí vêm a inveja, a soberba e o ciúme. pelo menos os meus.

quarta-feira, junho 01, 2005


Posted by Hello eric fischl. [bedroom scene #4 - you leave your lover to answer the phone]. 2004.

leave your lover& answer the phone-
o diabo é que às vezes é preciso.

embora o mais mágico disso tudo pra mim seja mesmo não estar esperando
ao pé do tal telefone.

domingo, maio 08, 2005

denise patrícia olhou uma depois da outra para as quatro ou cinco páginas de linhas escritas e riscadas e enfiou-as de volta dentro do caderno. ralhou consigo bufando como ralha um diretor com o mau ator.
denise patrícia irritava-se com a falta do que dizer e ainda mais com a falta do que inventar. se perguntava e se perguntava onde estavam as histórias, simples e honestas, complexas e profundas, onde estavam as pessoas das histórias, os vencedores e os castigados, onde estavam as cenas de bela poesia muda e os roteiros de meandros surpreendentes. denise patrícia pensava e pensava, mas seus pensamentos apareciam como esqueletos sem carne e sem sangue. esqueletos dançantes sem coração e sem cérebro que a punham assombrada sempre que se anunciavam em frases na folha diante dela. denise patrícia parecia não conseguir mais espantar os esqueletos, parecia não conseguir mais com suas histórias matar o que desejava.
com olhos de vago desgosto, olhava pro caderno fechado, sonhando. olhava a betty boop sensualmente surpresa com as bolhinhas de sabão estourando em seu traseiro na capa, sonhando. e lhe voltava à boca o sabor secreto e proibido de ver o caderno tornado uma daquelas relíquias literárias fetichistas, o caderninho de estimação da garnde grande escritora. e se perguntava quando quando? mas as grandes histórias não vinham; vinha apenas o peso dos sorrisos dos leitores; pesavam como gatos pesados como trens pesados em seu colo o eco de suas vozes, satisfeitas, e a auspiciosa adivinhação das palpitações lisonjeiras que provocaria com cada um de seus parágrafos. e denise patrícia sentia-se pungir, porque esse desejo sempre lhe pareceu a declaração da derrota final.
tomou na mão o caderno e o folheou devagar com o ar abalado de quem ouve uma canção triste, relendo e fatalmente procurando - nos antigos contos acabados, um estilo; nos inacabados, boas intenções; nos desenhos rabiscados, projeções espirituosas de seus humores; nas suas confidências, sentimentos selvagens. qualquer feito com seu nome escrito ou, pelo menos, mesquinhezas valorizadas com a posteridade.
mas o que denise patrícia encontrou foram frustrações. comparou-se com a denise patrícia do histórico de seu caderno, com uma antiga denise patrícia fudida mas esperta e senhora de suas fantasias, com uma denise patrícia que já sentia não existir mais - e se frustrou. o que encontrou foram as novas sementes plantadas que se recusavam a crescer em árvores frondosas e coloridas como as árvores de antes. e denise patrícia voltava e voltava ao pomar ultimamente, checando e checando as malditas sementes. e quando dava por si chorando como agora sobre os brotos mal saídos, se maldizia com a desgraça de um jardineiro incompetente.
fechou o caderno chateada consigo, principalmente por andar tão chateada consigo: de alguma forma, sabia que não era justo. olhou pra fora da janela e suspirou, entre melancólica e aborrecida. queria fechar os olhos. queria esquecer as histórias por enquanto. queria esquecer a recompensa que eram elas. queria ir passear na beira do lago. queria ir passear na beira do lago com jorge, tomar sorvete e ver o pôr-do-sol do dia quente ao lado dele, deitar na grama e receber dele beijinhos na barriga. ai. ia ligar pra jorge. ia tomar coragem e ia ligar.